Quero abordar aqui uma questão interessante relacionada aos temas: hierarquia, incerteza e jogo de influência no mundo árabe. Quando saí dos Emirados Árabes (Dubai) e entrei em Omã, recebi a informação de que perderia meu visto para os Emirados, isso significa que eu teria que organizar outro visto para voltar para Dubai e pegar meu vôo de volta para a Alemanha. Confesso que não cheguei a pensar nisso quando estava me preparando para a viagem. Mas, enfim, eu tinha duas opções: recorrer ao pessoal local (de Omã) e verificar se eles teriam como me ajudar ou entrar em contato com a agência de turismo em Dubai, que organizou meu primeiro visto e está acostumada a trabalhar com europeus. Optei pelo lado mais seguro: as duas opções.
Mas este não era o único problema. No próximo posto policial, onde finalmente receberíamos o desejado carimbinho para Omã, recebemos a informação de que, como tínhamos um visto de turista para Dubai, não poderíamos requerer o visto de trabalho para Omã – a real razão só Deus sabe qual é. Enfim, nada de carimbinho. Resumindo, passamos três dias sem permissão oficial para ficar em Omã. O mais legal é que eu não estava oficialmente em Omã e não poderia retornar a Dubai, ou seja, por três dias eu simplesmente não existi na face da terra. Nem Newton para explicar este milagre da física e isto está registrado no meu passaporte.
Foi interessante ver como o policial da imigração só poderia dar o carimbo se recebesse um formulário assinado por um outro, que, por sua vez, só poderia assinar se recebesse a autorização de um terceiro, que, por sua vez, não sabia se tinha poder para decidir a questão. Sorte que o coordenador da nossa viagem era um professor austríaco, que tinha sido vice reitor de uma faculdade em Buraimi, em Omã. Ele acionou seus contatos, inclusive um Sheik da região e até o serviço secreto de Omã, e assim recebemos nosso carimbinho. Depois que passa a gente até acha ilário, parece até uma tragi-comédia.
Neste período, tenho que admitir que senti falta da Alemanha, onde tudo funciona preto no branco, o que pode pode, o que não pode não pode e pronto e as regras são claras. Quanto ao meu visto para os Emirados, por exemplo, muitas pessoas de Omã se disponibilizaram a me ajudar, mesmo sem ter a mínima ideia de como poderiam fazer isso. No final das contas, elas não me ajudaram em nada e nem tocaram mais no assunto. Se eu não tivesse acionado a agência de turismo, poderia ter tido problemas com isso. De certa forma, é assim que ocorre muitas vezes no Brasil também. Neste sentido eu já me tornei um pouco alemã e me irrito quando alguém fala que vai resolver algo, mesmo que ele não saiba como resolver e no fim age como se nada tivesse acontecido.
Mas, enfim, a intensão da viagem era exatamente esta, conhecer a vida e a cultura local, e esta história de visto nos proporcionou muito conteúdo para reflexão.


