terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Mundo Árabe Parte 3 - Tudo por um carimbo


Quero abordar aqui uma questão interessante relacionada aos temas: hierarquia, incerteza e jogo de influência no mundo árabe. Quando saí dos Emirados Árabes (Dubai) e entrei em Omã, recebi a informação de que perderia meu visto para os Emirados, isso significa que eu teria que organizar outro visto para voltar para Dubai e pegar meu vôo de volta para a Alemanha. Confesso que não cheguei a pensar nisso quando estava me preparando para a viagem. Mas, enfim, eu tinha duas opções: recorrer ao pessoal local (de Omã) e verificar se eles teriam como me ajudar ou entrar em contato com a agência de turismo em Dubai, que organizou meu primeiro visto e está acostumada a trabalhar com europeus. Optei pelo lado mais seguro: as duas opções.

Mas este não era o único problema. No próximo posto policial, onde finalmente receberíamos o desejado carimbinho para Omã, recebemos a informação de que, como tínhamos um visto de turista para Dubai, não poderíamos requerer o visto de trabalho para Omã – a real razão só Deus sabe qual é. Enfim, nada de carimbinho. Resumindo, passamos três dias sem permissão oficial para ficar em Omã. O mais legal é que eu não estava oficialmente em Omã e não poderia retornar a Dubai, ou seja, por três dias eu simplesmente não existi na face da terra. Nem Newton para explicar este milagre da física e isto está registrado no meu passaporte.

Foi interessante ver como o policial da imigração só poderia dar o carimbo se recebesse um formulário assinado por um outro, que, por sua vez, só poderia assinar se recebesse a autorização de um terceiro, que, por sua vez, não sabia se tinha poder para decidir a questão. Sorte que o coordenador da nossa viagem era um professor austríaco, que tinha sido vice reitor de uma faculdade em Buraimi, em Omã. Ele acionou seus contatos, inclusive um Sheik da região e até o serviço secreto de Omã, e assim recebemos nosso carimbinho. Depois que passa a gente até acha ilário, parece até uma tragi-comédia.

Neste período, tenho que admitir que senti falta da Alemanha, onde tudo funciona preto no branco, o que pode pode, o que não pode não pode e pronto e as regras são claras. Quanto ao meu visto para os Emirados, por exemplo, muitas pessoas de Omã se disponibilizaram a me ajudar, mesmo sem ter a mínima ideia de como poderiam fazer isso. No final das contas, elas não me ajudaram em nada e nem tocaram mais no assunto. Se eu não tivesse acionado a agência de turismo, poderia ter tido problemas com isso. De certa forma, é assim que ocorre muitas vezes no Brasil também. Neste sentido eu já me tornei um pouco alemã e me irrito quando alguém fala que vai resolver algo, mesmo que ele não saiba como resolver e no fim age como se nada tivesse acontecido.

Mas, enfim, a intensão da viagem era exatamente esta, conhecer a vida e a cultura local, e esta história de visto nos proporcionou muito conteúdo para reflexão.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Mundo Árabe Parte 2 – Primeiras impressões em Dubai
Como eu havia prometido, estou aqui para dar o meu primeiro depoimento sobre a viagem ao fantástico mundo das mil e uma noites.
Minha primeira impressão ao chegar em Dubai foi: UAU!! E não poderia ser diferente, tupo em Dubai é giganesco, é moderníssimo, é limpíssimo, é chiquérrimo, ou seja, o lugar dos superlativos.
A viagem correu bem, chegamos pela manhã e meu visto foi aceito sem problemas (uma das minhas preocupações). Como não dormi muito na viagem, cheguei morta de cansada e tive que ir direto dormir assim que cheguei no hotel, infelizmente, não consegui acompanhar minhas colegas alemãs no primeiro passeio em Dubai.
Mais tarde acordei com uma fome enorme e acabei indo sozinha ao também “Big” Shopping Dubai Mall para comer e apreciar a luxuosidade do local. Logo no início percebi que, em Dubai, não há mesmo muitas restrições (principalmente em relação à roupas) para os turistas. Muito pelo contrário, eles são muito bem vindos, principalmente aqueles que podem consumir todo este luxo. E acreditem, mesmo aquelas mulheres que andam toda cobertas com suas abaias dos pés à cabeça, mesmo elas são chiques. Elas se preocupam com detalhes, são super bem maquiadas, usam bolsas e sapatos bellíssimos. Às vezes é possível dar uma espiadinha por baixo das abaias e o que se vê são vestidos finos, calças jeans justinhas, tudo com qualquer mulher vaidosa e autoconfiante usaria em qualquer lugar do mundo.
No segundo dia de viagem, nos encontramos com o restante do grupo e fomos para a faculdade de Dubai, onde fomos recebidos por um professor espanhol. Ele nos contou, entre outras coisas, sobre sua experiência como “Expat” em Dubai, falou das dificuldades e desafios em trabalhar para a construção e a ampliação do conhecimento científico em uma cultura tão diferente de todas as outras que se encontra no ocidente. Ele também ressaltou o esforço de toda a região árabe em criar profissionais nativos capacitados para trabalhar em prol da diversificação da economia no país, onde a principal fonte de renda são as reservas de óleo, que certamente não são eternas.
Depois deste interessante encontro partimos para um Citytour em Dubai. Visitamos a pista de Ski que fica dentro de um outro Shopping, o Emirates Mall, e depois fomos ao conjunto de ilhas “The Palm”.
Apesar de todo o luxo confesso que fiquei um pouco descepcionada com Dubai. É tudo muito bonito, mas uma cidade grande como qualquer outra, só que um pouquinho maior.
Visitamos ainda uma fazenda de camelos, cujo leite é exportado para a Austria para a produção de chocolate, uma espécie de delicatesse, muito bom.
Neste mesmo dia seguimos viagem em direção à Buraimi, uma cidadezinha em Omã, mas este é um tema fica para a próximo história. Até lá!

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Abaia – Roupa típica das mulheres islamicas. A religião islamica diz que as mulheres não devem expor seus corpos em público. A Abaia é usada, porém, em muitas regiões não somente por causa da religião e sim por uma questão de tradição.
Expat ou Expatriados – Termo usado para denominar pessoas que residem no exterior, em contato com uma cultura diferente da sua, podendo ser por um período determinado ou permanente.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Mundo Árabe Parte 1 – A preparação


Estou me preparando para uma viagem muito interessante, que eu vou tentar relatar em detalhes aqui no Blog. Estou indo passar 10 dias em Abu Dhabi, Dubai e Omã.
Para quem não está muito atualizado com a geografia, Abu Dhabi e Dubai ficam nos Emirados Árabes. Apesar de o sistema ser diferente, não se tratando de cidades e sim de Emirados independentes, Abu Dhabi é considerado capital. Já Omã é um outro país, cuja capital é Mascate. Em Omã eu vou visitar a capital e uma cidadezinha que se chama Buraimi.
Bem, meu dilema começou faz algumas semanas, assim que soube que os seminários que vou visitar lá serão em inglês. Desde que aprendi alemão, meu inglês ficou em segundo plano, mas desta vez vai ter que voltar. Além disso vou ter que preparar uma apresentação - isso tem me tirado noites de sono.
Mas enfim, vamos ao próximo dilema: obtive a informação de que brasileiros precisam de visto para Dubai e esta foi minha primeira experiência cultural da viagem. Percebi que, em Dubai, tudo que está relacionao à “regras e leis” é mais parecido com o Brasil do que com a Alemanha. A primeira informação foi de que só o pessoal de um hotel lá podia entrar com o pedido do visto para mim. Teria que ser um hotel 4 estrelas e eu também precisaria de um depósito de 500 dólares, fora as taxas do visto. Resumindo: apelei para o meu jeitinho brasileiro e comecei a negociar, no final recebi o visto de uma agência de turismo, vou ficar em hotel 2 estrelas e não precisei fazer o depósito. Aqui na Alemanha seria impossível barganhar uma coisa desse nível.
Dilema número 3: hora de fazer as malas. Como vamos participar de vários eventos oficiais, como um encontro com o prefeito de Buraimi e com o reitor da faculdade, então a orientação foi estarmos atentos às normas dos países árabes, ou seja, roupas sem decotes, nenhuma roupa curta, manga comprida e nenhuma calça justa. Puts... meu armário de brasileira é exatamente o oposto disso. Consegui juntar apenas 4 peças de roupa para colocar na mala. Corri para pedir socorro à minha cunhada e à uma amiga. Agora, juntando um pouquinho aqui e outro ali,  parece que já posso embarcar.
Fiquei pensando como tudo é tão inconsciente, como nossa maneira de vestir parece tão normal e de repente vira uma coisa tão inadequada.
Mas isso é só o começo. Fiquem ligados, esta viagem promete...

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Pausa para Férias!!

Mais uma vez uma loooonga pausa. O primeiro motivo foi a visita de duas pessoas muito especiais, minha querida Tia Nadir e seu esposo Nero. Passeamos por Berlin, Koblens e, claro, Munique, cidade onde eu moro. Foram dias muitos agradáveis e restou pouco tempo para o computador.
Depois que minhas visitas foram embora eu e meu marido pegamos um avião em direção à Palma de Mallorca, uma ilha da Espanha. Uma fugidinha da Alemanha para aproveitarmos os últimos dias de verão da Europa. Meus amigos no Brasil acharam muito fino este meu estilo de vida. Mas eu confesso aqui: Mallorca é para os alemães o que Guarapari é para os Mineiros... sem exagero. Da Alemanha saem diariamente várias grupos de turistas rumo à ilha, onde a maioria das pessoas também fala alemão. Outro país que também está bem representado aqui é a Holanda.
Nós estamos hospedados em um hotel ao norte da ilha, numa região relativamente tranquila, mais voltada para o turismo de famílias. Ao sul estão as praias mais famosas por suas festas, onde o “bicho pega” mesmo. Outra ilha espanhola conhecida internacionalmente por suas festas é Ibiza, esta também é famosa no Brasil. A viagem para Ibiza é um pouco mais cara, porém o público é mais jovem e variado do que aqui em Mallorca.
Para Brasileiros, uma viagem para curtir praias da Europa não é muito usual, afinal, não nos faltam praias no Brasil, sejam elas tranquilas ou agitadas. Mas se alguém tiver interesse em ter uma experiência diferente, eu aconselho uma temporada em Ibiza, principalmente para jovens (como eu) entre 20 e 30 anos. É uma ótima oportunidade para conhecer pessoas do mundo inteiro e a diversão é garantida.
Ahora, vamos a la playa!!!




segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Nem tudo é “selbstverständlich”!

Minha intenção era atualizar o Blog no fim de semana, mas ocorreu o mais esperado por toda a população alemã: o sol apareceu!
Estamos praticamente no final do verão, o outono chega oficialmente no dia 22 ou 23 de setembro por aqui. Isso significa que devemos curtir ao máximo todos os dias de sol e calor  que ainda temos.
Eu vou aproveitar este tema para apresentar à vocês uma palavra muito interessante em alemão: „selbstverständlich“. (Não se assutem, com treino a gente aprende a pronunciá-la direitinho.) No meu dicionário a tradução está como “natural”, “indiscutível” ou então “evidente”. Traduzindo ao pé da letra seria algo que "explica por si só" – Samba no Carnaval é selbstverständlich.
Mas qual a relação desta palavra com o tema? Bem, sol e calor na Alemanha não são “selbstvertändlich” (evidente e natural), como no Brasil. A primeira vez que eu visitei Munique foi exatamente nesta época do ano, em setembro de 2003, e eu me lembro de ouvir os Alemães dizerem: „Hoje tem sol, vamos fazer alguma coisa lá fora“. Como, para mim, o sol era „selbstverständlich“, eu queria mesmo era curtir preguiça em frente à TV. Hoje eu entendo extamente o que isso quer dizer e, como os alemães, eu também largo todas as obrigações para curtir um dia de sol no fim do verão. Eu acostumo dizer que minha vida aqui é lutar por um lugarzinho ao sol, no sentido literal e figurado da expressão.
O mais interessante disso tudo é que o fato de algo ser ou não ser lógico e evidente pode ser extendido para várias áreas da vida, quando se está em contato com outra cultura. Existem coisas que são evidentes e lógicas para mim, mas que para um chinês ou libanês podem parecer completamente irracionais.
No estudo sobre cultura, falamos muito sobre a importância de diferenciar observação e interpretação.  O que eu observo pode ser interpretado por mim e por uma pessoa de outra cultura de maneira completamente diferente. Eu confeço que achei os alemães meio malucos e muito metódicos com esta de “tem sol então vamos sair de casa” e provavelmente eles me acharam preguiçosa por não querer sair, já que o dia estava tão lindo.
Uma boa maneira de lidar com culturas diferentes é abrir espaço para novas interpretações.  É procurar entender o comportamento do outro e suas motivações, mas mudando de perspectiva e tentando entender o que o levou ou leva à se comportar de uma determinada maneira.
Pensando bem, este texto não se aplica somente à cultura, estar aberto à novas interpretações pode ser muito útil no dia-a-dia de qualquer pessoa. Afinal, não somos iguais e nem tudo é “selbstverständlich”!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Entrar em contato depois?

Olá Pessoal,

estou aqui hoje para falar de um tema que certamente vai aparecer várias vezes por aqui: minha tese de mestrado.
Depois de um longo e tenebroso inverno (ou melhor, verão aqui na Alemanha) consegui definir o tema da tese. Vou pesquisar sobre a necessidade de treinamento intercultural para brasileiros que vêm trabalhar na Alemanha, por um período médio de 2 à 4 anos.
Mas enfim, semana passada comecei a entrar em contato com algumas pessoas que eu poderia entrevistar e cheguei até o Lucas, um brasileiro que está aqui a trabalho. Em nossa conversa informal por telefone ele disse que recebeu um treinamento cultural no Brasil sim, que as pessoas foram muito simpáticas e que deixaram contato, caso ele precisasse de algo depois.
No momento em que ele me falou isso, acho que eu mesma tive um choque cultural. Como assim? Entrar em contato depois?..
Minha formação em cultura foi, ou melhor, está sendo aqui na Alemanha, tudo muito metódico. Agora eu dou umas aulas na Faculdade Técnica de Munique e o meu relacionamento com os alunos é bem formal, exatamente como eles estão acostumados. Dar o e-mail só se for para trabalhos da faculdade, telefone... ahhh só em caso de urgência mesmo.
Mas achei interessante, é exatamente sobre estas sutilezas que pretendo escrever aqui. A princípio parece tudo muito fácil, mas o pior é que é tão fácil que ninguém percebe. E quando você vê o problema já está lá. Um pensa que o outro é grosso, o outro pensa que o primeiro é folgado e no fundo ninguém tinha a intensão de ofender ninguém.

Fica aqui minha primeira dica sobre cultura!

Um abraço
Nilmara

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Nacionalidade: o mundo

Olá Pessoal,

resolvi inaugurar o Blog "Cultura em Foco" divulgando um texto que escrevi para um Site alemão em abril do ano passado. Na época fazia 5 anos que estava morando em Munique, hoje são 6 anos e meio. Não gosto de textos traduzidos, ficam meio fragmentados e pouco originais, mas acho que este texto fala um pouco sobre quem eu sou e o que me leva à me interessar pelo tema cultura.
Para quem tiver interesse em ler o texto em alemão o link é: http://uni.de/redaktion/Welt

Um abraço
Nilmara

Nacionalidade: o mundo
Há cinco anos eu moro na Alemanha. Na verdade, não foi muito difícil abandonar meu País, talvez pelo fato de eu não saber exatamente o que estava por vir. Hoje eu considero estes cinco anos como os mais difíceis e mais interessantes da minha vida.
O meu primeiro desafio foi recomeçar do zero. Tinha 26 anos, era formada, já tinha uns 3 anos de experiência de trabalho e uma bela carreira pela frente. Deixei tudo isso para novamente aprender a ler e escrever. Mas o mais complicado foi, e ainda é, entender como este País funciona e como pensam as pessoas que nasceram e cresceram neste mundo.
O tema cultura sempre me interessou e, de repente, tomei consciência de que muito daquilo que eu faço não é necessariamente normal e sim uma consequência ou influência da cultura na qual eu fui criada. Minha maneira de pensar, minhas ações e reações são frutos das informações que obtive desde meus primeiros anos de vida. Não estou falando apenas do temperamento alegre dos brasileiros, mas sim de diferenças sutis, porém muito marcantes.

Um exemplo disso é a herança cultural que se manifesta através da maneira de se comunicar. Os alemães tendem à “Low Context Culture”, ou seja, cultura de pouco contexto. (ver mais em “Dimensões Culturais”, dos autores Hall e Hofstede). Resumidamente, trata-se do fato de os alemães precisarem de muito menos informações e pouca relação com o interlocutor para que a comunicação seja efetiva. Ao contrário, pessoas de uma “High Context Culture”, cultura de contexto intenso, como os brasileiros e os chineses, se comunicam de uma maneira completamente diferente e gastam muito mais tempo e energia em conhecer a pessoa com quem se está falando.
Isto é o que eu tenho a oportunidade de vivenciar diariamente. Os alemães são bastante diretos na maneira de lidar com conflitos, enquanto brasileiros tentam evitar conflitos ou solucionam os problemas de forma mais indireta. Na verdade, não existe certo ou errado, quem tem a intenção de viver em contato com uma outra cultura tem que aprender a lidar com as diferenças.
Quanto mais eu me ocupo com o tema cultura, menos eu me sinto ligada a uma única cultura. Se aterrizo no aeroporto do Rio de Janeiro, pergunto-me porque tudo é tão devagar e confuso. Ao desembarcar no aeroporto de Munique, sinto falta da simpatia dos brasileiros. Mas observar esta situação assim por fora por uma “Metaebene” me ajuda a conviver melhor com tudo isso.
Hoje eu não me sinto mais como uma típica brasileira e muito menos me tornei uma alemã, minha nacionalidade agora é o mundo.